Paulo Roberto Gomes Fernandes acompanhou, em 2019, um dos mais relevantes fóruns de debate sobre o futuro da indústria de dutos no país, quando o Rio de Janeiro sediou mais uma edição da Rio Pipeline, evento que reuniu operadores, fornecedores, reguladores e especialistas do setor.
Naquele início de setembro, a capital fluminense concentrou discussões estratégicas sobre a malha dutoviária brasileira, seus desafios históricos e as oportunidades que se desenhavam diante das transformações tecnológicas e regulatórias em curso. A Rio Pipeline 2019 marcou um momento importante de reflexão coletiva sobre segurança, expansão da infraestrutura e necessidade de atualização dos métodos construtivos utilizados no Brasil.
Um encontro dedicado aos desafios estruturais do setor
A abertura do evento contou com a participação do então presidente da Transpetro, Antonio Rubens Silvino, que integrou um painel voltado às perspectivas da indústria mundial de dutos, trazendo a visão das operadoras. Ao longo da programação, ficou evidente a preocupação crescente com a segurança no transporte dutoviário, especialmente em razão do aumento expressivo dos casos de furtos de combustíveis registrados nos anos anteriores.
Dados apresentados durante os debates chamaram a atenção do público. Entre 2016 e 2018, as ocorrências de furtos em dutos da Petrobrás saltaram de 72 para 261 registros, um crescimento superior a 250%. Esse cenário reforçou a urgência de discutir soluções tecnológicas e operacionais capazes de mitigar riscos à sociedade, ao meio ambiente e à própria continuidade do abastecimento energético.
Segurança operacional e novas tecnologias em foco
Paulo Roberto Gomes Fernandes aponta que um dos painéis mais relevantes da conferência reuniu especialistas nacionais e internacionais para tratar da proteção de dutos. Entre os participantes estiveram Marcelino Guedes, então gerente executivo de Proteção de Dutos da Transpetro, e Cliff Johnson, presidente do Pipeline Research Council International (PRCI). As discussões abordaram tecnologias já empregadas pela indústria para monitoramento, detecção de interferências externas e resposta rápida a incidentes.
O debate evidenciou que, embora existissem soluções avançadas em operação em outros países, o Brasil ainda enfrentava dificuldades estruturais, tanto no campo regulatório quanto na adoção de novos modelos construtivos que facilitassem a fiscalização e a manutenção contínua das linhas.
A urgência de repensar os métodos construtivos
Em meio à extensa programação técnica, ganhou espaço a discussão sobre a viabilidade de novos métodos de construção de gasodutos e oleodutos no país. Um dos pontos levantados foi a quase inexistência, até então, de estudos comparativos entre dutos enterrados e dutos aparentes no contexto brasileiro.
Nesse debate, Paulo Roberto Gomes Fernandes voltou a destacar que o país seguia adotando, de forma quase exclusiva, métodos tradicionais de enterramento, sem análises técnicas aprofundadas que considerassem alternativas já consolidadas em outros mercados. Segundo ele, a ausência de estudos comparativos comprometia qualquer avaliação séria sobre custos, prazos, riscos operacionais e impactos ambientais.

A crítica não se limitava ao campo acadêmico. O argumento central era que, sem dados técnicos consistentes, o Brasil permanecia preso a modelos construtivos que encareciam obras, ampliavam prazos e dificultavam o monitoramento permanente das tubulações. A discussão sobre dutos aparentes, ainda incipiente à época, foi apresentada como uma agenda necessária e inadiável para o setor.
Um debate iniciado anos antes nos órgãos reguladores
Durante a Rio Pipeline 2019, também foi lembrado que o tema já havia sido levado, anos antes, para fóruns institucionais como a Agência Nacional do Petróleo (ANP) e o Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP). A provocação central era simples e direta: como comparar dois modelos construtivos se não existiam estudos técnicos nacionais que avaliassem, de forma equilibrada, vantagens e desvantagens de cada solução?
Paulo Roberto Gomes Fernandes destaca que essa lacuna regulatória e técnica ficou evidente nas discussões do evento, reforçando a percepção de que o país precisava investir não apenas em obras, mas também em conhecimento aplicado, pesquisa e atualização normativa.
Expositores e inovação tecnológica no centro do evento
Além dos painéis e plenárias, a área de exposição da Rio Pipeline 2019 apresentou ao mercado diversas inovações. Empresas de engenharia, fabricantes de equipamentos e prestadores de serviços mostraram soluções voltadas à construção, operação e manutenção de dutos.
Entre os destaques esteve a participação da Odebrecht Engenharia e Construção, que apresentou seu histórico de mais de 5 mil quilômetros de dutos implantados. O estande contou, inclusive, com um simulador de pipelayer, permitindo aos visitantes conhecer de forma prática as etapas da montagem de tubulações em campo.
Um retrato do setor naquele momento histórico
A Rio Pipeline 2019 foi realizada ao longo de quatro dias e reuniu quatro plenárias, 14 fóruns técnicos, almoços-palestras e dezenas de expositores. Ao todo, foram apresentados centenas de trabalhos técnicos, produzidos por autores de diversos países, consolidando o evento como um dos principais espaços de troca de conhecimento do setor na América Latina.
Vista em retrospectiva, Paulo Roberto Gomes Fernandes conclui que aquela edição da conferência representou um retrato fiel dos dilemas enfrentados pela indústria de dutos no Brasil naquele período: a necessidade de ampliar a segurança, modernizar métodos construtivos, investir em estudos técnicos e alinhar o país às práticas já adotadas internacionalmente.
Autor: Ivern Moral